segunda-feira, 23 de abril de 2012

Brasília, uma cidade de muitas facetas.

Alvorada em Brasília  - Foto de Augusto Areal
"No príncipio era o ermo 
Eram antigas solidões sem mágoa. 
O altiplano, o infinito descampado 
No princípio era o agreste: 
O céu azul, a terra vermelho-pungente 
E o verde triste do cerrado. 
Eram antigas solidões banhadas 
De mansos rios inocentes 
Por entre as matas recortadas. 
Não havia ninguém. A solidão 
Mais parecia um povo inexistente 
Dizendo coisas sobre nada. "
Vinicius de Moraes, em Sinfonia da Alvorada , 1961.


Parque da Água Mineral
Quando Vinicius escreveu a Sinfonia da Alvorada, não tinha idéia dos rumos que aquele cerrado deserto tomaria. Brasília não coube dentro das linhas traçadas por Lúcio Costa e Oscar Niemeyer e se expandiu sem o planejamento urbano de seus idealizadores. De acordo com o último censo, são 2.570.160 habitantes, o que significa 444,06 habitantes por Km2 - a maior densidade demográfica do País, segundo o IBGE. 


Cheguei aqui quando tinha apenas 04 anos. Em casa, morávamos confortavelmente amontoados. Éramos eu, meu irmão, meu pai, minha mãe, meus avós maternos, minhas duas primas e a querida Antônia, num apartamento da 204 sul. Naquela época, andávamos tranquilos nas ruas da cidade. O ensino público era bom. O transporte supria as distâncias que ainda eram pequenas. 


Centro Cultural Banco do Brasil
Aqui ganhamos uma nova família. Muita gente ficou em Belém e no Rio. Era preciso um ninho novo. Meus pais conheceram bons amigos e nós conhecemos os filhos destes bons amigos. E crescemos juntos, descobrimos o mundo juntos, aprendemos a viver juntos e, mesmo quando ficamos muito tempo sem nos ver, quando nos vemos, nos abraçamos como se tivéssemos visto ontem. Nos anos 80, Brasília tinha essa característica: as pessoas se juntavam, porque suas famílias de origem estavam longe. Acho que até hoje acontece isso.


.Essa cidade me ensinou a respirar arte: leitura, música de qualidade, teatro, dança, exposições, museus. As bibliotecas da UNB e do INL, a Escola de Música de Brasília, o Teatro Dulcina e o Garagem... quem estudava em escola pública nos anos 80/90 era incentivado a tudo isso. E hoje, tudo isso cresceu, melhorou, expandiu. 


Beirute
A noite da cidade também melhorou. Tem programação pra todo gosto e de todo tipo. Barata, cara, chique, pé sujo... Os bares ainda fecham cedo e a noite acaba na hora que devia estar começando, mas ninguém pode mais dizer que não tem nada pra fazer em Brasília. Tem sim!


Marcha dos Excluídos 2005
Em 52 anos temos muito que comemorar... Mas também temos muito para chorar. A verdade é que de 1990 pra cá, Brasília se tornou uma terra de gente muito sofrida. A maioria da população brasiliense não mora no Plano Piloto nem em seus arredores, mas trabalha lá. Em média, as pessoas perdem 3 horas por dia para ir e voltar de seus trabalhos. Pagam caro neste transporte, que é de qualidade deprimente. Ganham mal em relação ao elevadíssimo custo de vida. Vivem mal, com nenhuma opção pública de saúde - em Brasília, nem hospital particular presta - e raras opções públicas de educação. Alimentação e vestuário são caríssimos. O acesso à cultura e ao lazer nas regiões administrativas também é escasso.


Brasília não é diferente do resto do País. A cidade cresceu e uma sequência de governos populistas trouxe para Brasília pessoas de todas as regiões brasileiras,  em busca de moradia, de emprego e de uma vida melhor. Mas, Brasília nunca teve um parque industrial, nem grandes empresas que abrigassem tanta gente. Os programas habitacionais empreendidos por estes governos, não incluíam saneamento básico, planejamento urbano, nem nada do tipo. E a cidade está pagando sua conta até hoje. 
Lixão da Estrutural - Foto do site Farol Comunitário


Brasília é conhecida como a terra dos políticos. Mas, poucos são daqui. A maioria vêm de todos os Estados do Brasil para exercer um mandato para o qual foram eleitos pelos homens e mulheres de seus Estados. E a cidade de Brasília tem levado a fama.  


A maioria da população brasiliense é composta por trabalhadores, ao contrário do que se pensa e se divulga por aí: 52,5% exercem alguma atividade na esfera privada e 37,5% exercem atividade na esfera pública. A taxa de desemprego (apenas no DF, sem considerar entorno) é de 11,5%, considerando entorno sobe para 35%, segundo dados da CODEPLAN. 


Muita gente, pouco espaço, desigualdades sociais gritantes, gente ganhando muito dinheiro, gente ganhando nenhum, desemprego, sub-empregos em larga escala, dois mundos dentro de uma mesma cidade. Que um dia tudo isso mude... Não só em Brasília, mas em todo Brasil, que é todo sofredor deste mesmo mal chamado abismo social.


Bloco Carnavalesco Suvaco da Asa
Ao poetinha, se ele puder me ouvir, tenho a dizer que hoje Brasília não tem mais "aquela solidão de um povo inexistente". Brasília já tem seu povo, sua cultura, sua gente boa e honesta que aqui nasceu e trabalha e que tem muito a dizer de si mesma e daquilo que deseja para o futuro dessa cidade. 


Parabéns, Brasília!

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