segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Quando o amor calça sapatilhas...

Grupo Asas para Dançar , no Teatro Nacional, em 08.10.2012.
O amor poderia andar descalço, usar scarpin ou calçar um tênis, mas ele escolheu que seria melhor sair de casa com sapatilhas nos pés. 

As sapatilhas deixaram o amor mais confiante e diziam ao amor que com elas, ele seria capaz de fazer qualquer coisa. 

Embora o amor se sentisse infinitamente mais belo com aquelas sapatilhas, não conseguia acreditar que elas o empoderassem. 

O amor era medroso. Achava aquelas sapatilhas muito frágeis. O amor tinha medo de se machucar.

Mas, numa determinada noite, o amor saiu de casa sem pensar em muita coisa, como saem os amantes quando estão apaixonados: não pensou se daria certo, não pensou nos obstáculos que enfrentaria com aquelas sapatilhas tão simples e pouco seguras num mundo cheio de pedras. 

O amor simplesmente as calçou e elas o levaram onde ele nunca imaginou que um dia pudesse chegar. 



quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Apenas reze.

Termino de ler meu livro e entro no quarto. Tudo escuro. Apenas a lua que sentou na minha janela ilumina o sono dos meus filhos. Olho pra eles e minha vida silencia por alguns segundos. Minha filha toda coberta, de lado, encolhida com as mãozinhas abaixo da orelha. Meu filho todo estirado, com a cabecinha toda suada - ele está sempre com calor - e aquela carinha de quem dorme o "sono dos justos". Agradeço a Deus e rezo em silêncio. Sei que este é um momento doce e sublime e que por toda vida desejarei revivê-lo. Cama é ninho.
Eles precisam mesmo um dia crescer? Aprender a dirigir? Dormir na casa de gente que eu não conheço? Chegar em casa tarde? Pior, chegar em casa de manhã??? Precisam mesmo sair de casa? Morar sozinhos? Namorar, casar, sofrer por amor??? Ai,  Deus, como eu desejarei que o tempo volte e que eles estejam ali naquela cama. 
Respiro, volto na sala, tomo um copo de água, como meio pacote de amendoim que comprei ontem no Jerivá. Sinto-me tão idiota. Penso no meu pai e nas infinitas noites que ele me esperou no sofá da sala. Lembro de meus incansáveis discursos sobre a liberdade e das milhares de vezes que os repito para todos, inclusive para os meus filhos. Pensei: "- Liberdade é boa para os filhos dos outros."
Rezei de novo e tive a inexorável certeza de que um dia isso será tudo que eu poderei fazer. 

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

"Essas pessoas na sala de jantar..."

Mutantes, Gal, Caetano e Gil na estréia de “Divino Maravilhoso” na TV Tupi, em 28 de outubro de 68.
 (Paulo Salomão – Abril Imagens)
Retirado do site www.tropicalia.com
 

Ontem fui assistir Tropicália. 

O documentário é um registro histórico maravilhoso sobre música, teatro, arte e sobre todo o conceito do que era ser tropicalista nos anos 60 e 70 e também sobre a desconstrução deste conceito. Imperdível!

Adoro cinema. Gosto do cheiro das salas fechadas, do escurinho, da pipoca e, principalmente daquela sensação de estar só diante daquela telona. Ali é você, a tela e uma história que é só sua. Não importa se o cinema está cheio. A história é sua e você fará uma leitura única e diferente de todo mundo que tá ali enchendo aquele espaço.

Voltando... O filme é todo bacana, mas no meio daquele bando de histórias e depoimentos alguém lembrou de "Panis et Circenses" e "das pessoas na sala de jantar tão ocupadas em nascer e morrer". E eu comecei a minha viagem pessoal, minha história única: lembrei de mim, da minha família, dos meus amigos, dos meus filhos. Desejei ardentemente nunca ser a pessoa adulta e chata da sala de jantar; desejei não cair no senso comum; desejei não ser metade e ser sempre inteira; desejei nunca me contentar com uma vida pequena; desejei ser uma senhora atrevida, ousada e bem humorada; desejei que os anos não me tornem ranzinza, nem careta; desejei alimentar sonhos até o último dia da minha vida. Rezei. 

Uma vez meu filho me disse: "Mamãe, eu não quero crescer". Eu pensei: 
"-Jesus, síndrome de Peter Pan não, né?" O triste é que de vez em quando ele repete isso. Até ontem, eu tinha sempre uma sensação ruim quando escutava essa frase, porque sempre pensava que ele devia achar a minha vida um saco ou ainda que devia achar os modelos adultos a sua volta um tédio. 

Ontem, cheguei em casa e não me contive, perguntei: "Filho, porque você não quer crescer?" E ele respondeu: "Mamãe, eu gosto muito de brincar, de ir pra minha escola, de fazer judô e de poder ir na piscina todo dia. Também gosto de dormir perto de vc e da Isa. Acho melhor ser desse tamanho que eu sou." Que alívio... Ele não acha horrível ser adulto... Ele só acha bom ser criança!

Mesmo assim, "Panis et Circentes" soa e ecoa nos meus ouvidos como uma sirene dessas bem escandalosas: "- Seja adulta, mas não fique aí parada nessa sala de jantar sem graça..."


domingo, 12 de agosto de 2012

Pai, pra quê te quero?

Alguém no mundo inventou que amor de mãe é diferente de amor de pai. O tal instinto materno nos conduziria a um amor único e, por isso, somos nós as mães e mulheres as únicas capazes de um amor perfeito, da abdicação, da resignação, de aguentar duras jornadas de trabalho e de ainda chegarmos em casa cheias de sorrisos e afagos para distribuir aos nossos filhos e companheiros... Quanta bobagem! Mas uma bobagem repetida durante séculos vira uma verdade inquestionável.

Os tempos evoluíram e novas concepções de afeto e de família têm ajudado a desmistificar que somos nós e só nós as capazes do amor. Ufa!!!  

Tive a sorte de crescer num lar com mãe e pai. Minha mãe se foi quando eu completei 18 anos. Tive mãe até ingressar na idade adulta. Mas, a verdade é que a Geração Coca-Cola - da qual faço parte - foi muito poupada pela geração da ditadura e chegou à idade adulta imatura demais e ainda muito carente de colo de pai e mãe. 

Minha mãe se foi e eu vi meu pai virar uma galinha matrona que coloca os pintinhos embaixo da asa. Por isso, tenho absoluta certeza de que mães e pais são igualmente capazes do amor, da resignação e da abdicação em prol da felicidade de seus filhos e que, fácil mesmo para um mundo de concepções machistas, é prosseguir neste discurso incansável de que cabe às mães o afeto.

Hoje, enxergo meu pai em mim mesma. Falo com meus filhos e escuto sua voz na minha. Dele herdei a honestidade, a vontade de acertar, a preocupação com o próximo e, também, o jeitão desligado, a completa distração, motivo de risadas frequentes dos amigos mais chegados. 

Não sou mais a menina de 18 anos, mas necessito ouvir a voz do meu pai todos os dias, de seu ombro e colo amigos, de sua risada desmedida diante das traquinagens dos meus filhos, da sua opinião sempre tão serena diante das minhas decisões e preciso, principalmente, de seu amor obstinado de pai. 


sexta-feira, 25 de maio de 2012

O "Veta Dilma" e a democracia.


Sim... é verdade! O veto presidencial não é o instrumento mais democrático que o Brasil possui - e nem o que nós gostaríamos de estar apoiando neste momento - mas também não chega a ser um afronto ao regime democrático, como se tem dito por aí. 

Previsto na Constituição Federal da República de 88, art. 66, § 1º§, o veto se constitui hoje na única esperança dos brasileiros terem sua voz ouvida no que tange ao novo Código Florestal. 

Quando um projeto de lei é aprovado no Poder Legislativo, ele vai à sanção da Presidente, que poderá sancioná-lo ou vetá-lo, total ou parcialmente.
A Presidente tem o prazo de 15 dias úteis para se manifestar. Esgotado esse prazo, projeto é aprovado tacitamente. 
Só há duas razões para o veto: política, quando o projeto é considerado contrário ao interesse nacional; ou jurídica, quando o projeto é considerado inconstitucional.
Após o veto presidencial, o Senado e a Câmara formam uma comissão mista que para analisar o veto e dar seu relatório no prazo de 20 dias.
O relatório é lido em uma sessão conjunta, discutido e votado secretamente. Para ser rejeitado, o veto precisa de maioria absoluta de votos negativos, tanto na Câmara como no Senado.
Se o veto for derrubado, a Presidente da República deve promulgar e publicar a matéria.
Portanto, ainda teremos muito jogo político pela frente. 
Falando em miúdos, para derrubar o veto, é preciso 257 votos favoráveis na Câmara e 42 no Senado. 
O texto-base foi aprovado com 274 votos a favor, 184 contra e duas abstenções. Se todos os deputados mantiverem suas posições, a Câmara derrubará o veto com 17 votos - fácil, fácil!  - o que resultaria em imenso desgaste político à Dilma, que agora precisará correr atrás da base governista para manter o veto, caso o faça como espera a população brasileira. 
Pesquisa do Datafolha, de abrangência nacional, realizada em zonas rurais e urbanas entre 3 e 7 de junho de 2011, já apontava a insatisfação nacional com o Código que foi aprovado pela Câmara. 
Dependendo das perguntas, a porcentagem dos brasileiros que discordavam da proposta votada na Câmara dos Deputados variava entre 77% (a favor do adiamento do debate para ouvir a ciência) e 95% (que não aceitam perdoar desmatamento ilegal sem recuperação). 
Na pergunta básica e introdutiva, na qual se colocou a alternativa entre dar prioridade para a proteção das florestas (mesmo que isso limite a produção agropecuária) ou para produção (mesmo que limite a proteção das florestas), a primeira alternativa recebia 85% e a segunda, 10%, com 5% de "não sei".        
Quando se falou em perdão do desmatamento ilegal, foram realizadas perguntas diferentes. "Quando se oferecem três opções qualificadas, com uma intermediária, é possível observar como a primeira escolha da população seja em prol da mais rigorosa, isto é a de punir em qualquer caso para dar o exemplo, escolhida por 48% dos entrevistados; em seguida vem a opção intermediária (a de punir só quem se recusa a repor a floresta) com 45%, enquanto a opção de perdoar sem repor a floresta, objeto da proposta votada pela Câmara dos Deputados, atinge meros 5%. Quando se apresentam apenas duas opções, 79% se declaram em geral contra perdoar penalidades e multas (com 19% que aceitam esta possibilidade) e 77% se declaram contra a dispensa da reposição da floresta (com 21% que a admitem)."  publicada pela www.wwf.org.br   
No caso da ocupação das Áreas de Preservação Permanente (encostas, topos de morro, várzeas, etc.), prevalece a opção intermediária, ou seja a de manter apenas cultivos que segurem o solo e não gerem riscos de acidentes, com 66%, seguida da opção de remover todos os cultivos, com 25%, enquanto aquela de manter todos os cultivos - conforme proposta aprovada pela Câmara dos Deputados - é apoiada por apenas 7% da população.    
A opinião geral sobre o tema é confirmada quando se passa a considerar as implicações políticas: 79% apoiam o eventual veto da presidente, no caso em que o Senado validasse a proposta da Câmara. 
Vale salientar que no mesmo período, pesquisa do Datafolha indicou que apenas  47% da população aprovavam a atuação da Presidente Dilma. 
Uma parcela ainda maior, atingindo 84%, afirma que não votaria em deputados e senadores que tenham votado a favor do perdão de desmatamento ilegal.    
Ontem as assinaturas populares em petição da Avazz, entregue à Presidente estavam em 1.900.000. Hoje, neste exato momento, já são 2.096.666 assinaturas. 
Em tempos de Rio +20, o não veto da Presidente, com tanto clamor popular, traria péssimas impressões para o Brasil internacionalmente. 
Portanto, em meio a tantos interesses espúrios e econômicos, esperamos ansiosos que vença a democracia que o veto tentará resguardar!

sexta-feira, 11 de maio de 2012

"Ser mãe é desdobrar, fibra por fibra o coração"

Eu, com um ano, e minha mãe
Muitas coisas me lembram minha mãe: casa cheia, festa, praia, um prato requintado, Chico e Nara, Ney Matogrosso, teatro, risos, rede, meus filhos, minhas primas (que são até mais parecidas com ela do que eu), meu irmão, cheiro de patchouli, torta de tapioca com coco, peixe na folha de bananeira. Ai, que saudade!

D. Graça se foi quando eu tinha 18 anos. E já se passaram quase 20... mas parece que foi ontem, porque colo de mãe é coisa inigualável e quando elas se vão deixam saudades e buracos que o tempo não é capaz de preencher... ao menos, não por completo... 

Mas o tal do tempo é um grande aliado e com ele vamos aprendendo a nos reinventar, e eu fui reconhecendo minha mãe e sua herança de amor em muitos outros colos: no do meu pai, incansável na sua arte de me aceitar do jeitinho que eu sou; na minha madrasta, que virou avó dos meus filhos e não se nega a lhes dar todo amor deste mundo; em minhas tias, especialmente tia Ana e tia Maria, que se fazem presentes em minha vida constantemente; em alguns amigos, que não me faltam nas horas em que eu mais preciso; e até nos meus próprios filhos que enchem minha vida de amor e de alegria todos dos dias. 
Ana Luísa com João Arthur no colo


E hoje, a mãe sou eu. Gosto de ser mãe. É o meu papel preferido, embora eu saiba que todos os outros são importantes e igualmente especiais, eu gosto de ser mãe. Gosto de chegar em casa e receber aquele mundo de beijos, afagos e abraços; gosto de colocar eles na cama pra dormir, como se eu tivesse algum controle sobre aquelas vidas e seus futuros; gosto de risada de criança, de comida de criança, de filme e de música de criança; gosto de sua pureza e inocência diante da vida; gosto de ver como são corajosos e como não se intimidam diante dos desafios e intempéries da vida e gosto principalmente da capacidade que as crianças têm de entender tudo que lhes é explicado com simplicidade. 

Amo a teimosia e a desobediência dos pequeninos. Estes dias, pedi a Deus que mantenha em meus filhos a capacidade de me desobedecer: nem sempre estou certa, não sei de tudo e sinto que eles possuem habilidades suficientes para serem melhores do que fui até hoje.    

Eu, João e Ana - Foto de Lorena Lopes
Meus filhos me ensinaram que a vida é simples. Crianças sorriem quando ganham balinha e são capazes de dar um grito de alegria diante de uma casquinha de sorvete. Crianças não tem vergonha de si mesmas, nem dos outros. Crianças não se concentram naquilo que não lhes traz alegria, não se interessam por aquilo que não lhes desperte a criatividade e a imaginação e nem se prendem a pessoas que não lhes retribuem o amor que elas disponibilizam. 

Crianças não cultuam ódios, nem preconceitos, a não ser quando são ensinadas a fazê-lo. Crianças não tem medo de dizer que não sabem, não hesitam em chorar quando se sentem tristes e não mascaram sentimentos. 

Mas, meus filhos não serão crianças para sempre e eu, como toda mãe que se importa - sim, existem mães que não se importam - tenho medo. Sinto um frio na barriga todos os dias em que costuro com cuidado suas asas. Quem pode viver sem asas? Eles a querem intensamente, como um dia eu as desejei e eu preciso vencer meus medos, dia-a-dia, para ir costurando estas asas da melhor forma, para que consigam produzir o melhor vôo, para que proporcionem a eles o melhor passeio neste mundo. 

O que eu queria de dia das mães? Queria alguma garantia, algo que me dissesse que estou fazendo o que é certo, algo que acalentasse o meu coração e me livrasse da culpa diária da maternidade - toda mãe sabe do que falo - algo que me fizesse acreditar que eu sou uma boa mãe. 

Mas não há garantia para isso. É preciso viver cada pedacinho de vida e assumir que mãe não é Deus. Acho que essa é a minha maior dificuldade neste papel. Aceitar minha impotência e incapacidade de resolver todas as coisa por eles, de protegê-los a cada novo passo - ou vôo - de me desvencilhar da minha soberba e me aceitar incapaz. 

Então, o que eu desejo a todas as mães é o que eu desejo também para mim: desejo que se aceitem pequeninas; desejo que se perdoem pelos erros, pelas falhas, pelos momentos em que não puderam fazer nada; desejo que se saibam únicas e preciosas, com todos os seus medos, erros, acertos, culpas; desejo que não desistam de seus próprios desejos; desejo que saibam ser um pouco egoístas, porque não há como fazer alguém feliz, quando não se é feliz; desejo que saibam que há diferença entre ser mãe e parir; desejo que tenham fé em algo que as sustente; desejo que aceitem a si mesmas e que se achem mulheres especiais; desejo que não se furtem ao amor de seus filhos; desejo que reconheçam os erros deles e que os ajudem a crescer; desejo-lhes paciência; desejo-lhes um bom companheiro, que torne a vida mais afável; desejo segurança, aconchego, ternura, paz; desejo poesia, gota de chuva, mão-na-mão, flores, sol, música e sorrisos e também desejo lágrimas porque nenhuma vida é feita só de sorrisos.

Para todas as mães: as de sangue; as de coração; para os pais que são mães; para as mães de pessoas que, por algum motivo, estão excluídas socialmente; para as mães de pessoas desaparecidas; para as mães que nunca mais viram seus filhos; para as mães que vivem coladas neles; para as mães que não se sentem mães; para as mães de estrelinhas; para as mães que são avós e bisavós; para as que ainda não são, mas desejam ser mãe. 

Beijos com amor, 
Adriana Monteiro da Silva

terça-feira, 8 de maio de 2012

Uma gota de justiça: Eldorado dos Carajás!





Após 16 anos, a justiça do Pará condenou o coronel da Polícia Militar paraense Mário Colares Pantoja a 258 anos de prisão e o major da PM José Maria Pereira de Oliveira, a mais de 158 anos. 


Os dois são acusados de envolvimento na morte de 19 trabalhadores rurais sem-terra, em 16 de abril de 1996, no episódio conhecido como Massacre de Eldorado dos Carajás. 

Mário Colares Pantoja já se entregou e foi preso pelas autoridades paraenses, segundo a Secretaria de Segurança Pública do Estado.

Esta é uma gota de justiça, um alento, um acalanto, uma esperança, em meio aos recorrentes episódios de violência e assassinatos no campo. Os números da Comissão da Pastoral da Terra falam por si só. De 2002 até 2011 foram contabilizados 9.410 conflitos e 272 assassinatos. Em 2011, houve um aumento de 12,7% nas ocorrências de trabalho escravo no campo, se comparadas com 2010. 

A Pastoral da Terra emite relatórios anuais acerca da violência no campo. "Um dos documentos entregues, foi a relação de Assassinatos e Julgamentos de 1985 a 2010. Neste período, foram assassinadas 1580 pessoas, em  1186 ocorrências. Destas somente 91 foram a julgamento com a condenação de apenas 21 mandantes e 73 executores. Dos mandantes condenados somente Vitalmiro Bastos de Moura, o Bida, acusado de ser um dos mandantes do assassinato de Irmã Dorothy Stang, continua preso", assim consta do relatório.


No período da votação do novo Código Florestal, ocorreram 29 assassinatos, sendo 11 haviam sofrido ameaças de morte. De 2010 para 2011 esse número aumentou consideravelmente de 125% para 178%. 


Foto: Nelson Souza/IBAMA
A punição dos assassinos de Maria do Espírito Santo e José Claudio, mortos em Nova Ipixuna, no Pará é uma das exigências do documento. Na época, a Secretaria de Direitos Humanos foi informada da situação dos ambientalistas e não tomou as devidas providências. Agora, Laíssa Sampaio, irmã de Maria Espírito Santo e seus companheiros de luta também são alvo das ameaças dos interessados economicamente na região. 


Enquanto isso, a herança colonial dos grandes latifúndios segue e a reforma agrária permanece como apenas mais um sonho, sem o qual fica impossível se pensar em um Brasil mais justo e igualitário. 

Adriana Monteiro da Silva


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terça-feira, 1 de maio de 2012

Cyber love

Moravam longe. Pouco se viam. Eram anos de um relacionamento em que o telefone e a internet eram o único meio de diminuir distâncias. Ela não conseguia mais amar. Não achava ninguém interessante. Não encontrava brilho em nenhum dos olhos que a noite lhe apresentava. Parecia que a vida já havia lhe tirado a capacidade de acreditar no outro. Ele não. Mantinha aquele relacionamento com ela, apenas para ter a certeza de que alguém o compreendia. Chegava em casa e deitava com a mulher, cujo amor ele negava.
Ele precisava falar com ela, conversar e dividir suas meias-verdades. Ela falava pouco. Resumia-se a escutar e a desejar que em alguma daquelas  falas, algo a alimentasse. Gostava de suas doces risadas e da sua liberdade ainda que ele estivesse preso em suas próprias mentiras. 
Precisavam um do outro. Por muitas vezes, tentaram não mais se falar. Não aguentavam. Havia algo nele que só ela era capaz de entender. Havia algo nela que só ele era capaz de desvendar. Se liam nas falas um do outro e utilizavam-se daquilo para tentar ir além. 
Ela odiava mentira e ele mentia compulsivamente. Ele detestava gente sem ambição e sem propósito e ela não tinha nenhum dos dois. 
Não via nele alguém que a pudesse fazer feliz. Não via nela alguém capaz de fazê-lo amar. Ainda assim, precisavam se falar todos os dias e saber um do outro, como se isso fosse capaz de lhes trazer de volta a vida. 

Maria sem música

No fundo, ela sabia. Algo havia se quebrado. Seu riso era diferente. Ela não se reconhecia mais. Sua tristeza havia lhe tirado até sua identidade. Olhava pra ele e tudo aquilo não fazia muito sentido, senão pelo pequeno Francisco que ainda segurava em seus braços. O garoto precisava dos dois, pensava. Por outro lado, de que dois ele estava sentindo falta? Faltava acalanto, ternura, afeto, faltava uma música que lhes saltasse a alma e fizesse com que os dois se reconhecessem de novo. Há muito ela esperava que a música tocasse, mas o CD parecia arranhado e o que tocava ela realmente não queria mais ouvir. 
Sim, havia uma vontade de estar junto. Ela já havia abandonado tudo para ficar com ele. Ele também já fizera o mesmo. Os dois se amavam, não havia dúvida. Questionava-se ela se o amor era suficiente. Ela gostava de beijos, de abraços, de elogios, dos sussurros, das carícias sem tempo nem hora. Ele era pacato, calado, objetivo, prático e não entendia os porquês de todo aquele drama. 
Mas não era drama. Ela realmente precisava daquilo. Precisava se sentir amada e ele não a aquecia. Ela queria paixão. Queria mais da vida. E sabia que a vida podia ser mais do que aquilo. As praticidades diárias eram pouco pra ela. Sua alma ardia. Seu coração também

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Esse amor chamado amizade...

Meu primeiro amor era loira, dona de belos olhos verdes e de um dos olhares mais doces que já conheci. Seu nome é Larissa. Mas, o bom mesmo é que Larissa, mesmo passados 30 anos, mantem o doce olhar e a alegria dos tempos em que éramos crianças. Depois de Larissa, veio Fernanda... divertida, cheia de idéias mirabolantes e muito livre, Fernanda é o amor que toda amiga merece na vida.  Espivitada, tinhosa, curta, grossa, cheia de vida, de ternura e de muitos encantos, Raquel não é só minha amiga, mas é madrinha do meu filho. Depois delas, muitas e muitos chegaram. E, volúvel como eu sou, não há semana que eu não encontre um  novo amor. Meus amores são cheios de peculiaridades tão suas, tão únicas e que acabam virando nossas. 
Meus amores são cheios de história. E nós nos reconhecemos nelas. Não tenho amores mornos. 
Meus amores são cheios de vida e carregam em si uma vontade enorme de viver e de transformar o mundo ao seu redor. 
Meus amores me contam suas mais ridículas bobagens, seus mais doces desejos, suas mais calorosas aventuras e dividem comigo suas vidas. 
Meus amores me procuram pra chorar e me procuram pra sorrir. Pensam que eu os ajudo, quando, na verdade, sou eu que preciso de cada pedacinho deles para seguir. 
Meus amores são cheios de habilidades e nelas eu me inspiro para ser todo dia um pouquinho melhor. 
Meus amores são cheios de defeitos insuportáveis e é nestes defeitos que eu reconheço o quanto os amo. 
Meus amores riem de si mesmos, riem da vida, riem dos outros, riem até do que não é pra rir e assim, tornam meu dia-a-dia leve e suave. 
Meus amigos são os meus amores eternos, são minhas paixões sem prazo de validade, são minhas canções favoritas, são afago na cabeça, mão na mão, beijo, abraço, são palavras sussurradas ao pé do ouvido. 
Meus amigos são o amor que não se acaba. 


Adriana Monteiro da Silva




segunda-feira, 23 de abril de 2012

Brasília, uma cidade de muitas facetas.

Alvorada em Brasília  - Foto de Augusto Areal
"No príncipio era o ermo 
Eram antigas solidões sem mágoa. 
O altiplano, o infinito descampado 
No princípio era o agreste: 
O céu azul, a terra vermelho-pungente 
E o verde triste do cerrado. 
Eram antigas solidões banhadas 
De mansos rios inocentes 
Por entre as matas recortadas. 
Não havia ninguém. A solidão 
Mais parecia um povo inexistente 
Dizendo coisas sobre nada. "
Vinicius de Moraes, em Sinfonia da Alvorada , 1961.


Parque da Água Mineral
Quando Vinicius escreveu a Sinfonia da Alvorada, não tinha idéia dos rumos que aquele cerrado deserto tomaria. Brasília não coube dentro das linhas traçadas por Lúcio Costa e Oscar Niemeyer e se expandiu sem o planejamento urbano de seus idealizadores. De acordo com o último censo, são 2.570.160 habitantes, o que significa 444,06 habitantes por Km2 - a maior densidade demográfica do País, segundo o IBGE. 


Cheguei aqui quando tinha apenas 04 anos. Em casa, morávamos confortavelmente amontoados. Éramos eu, meu irmão, meu pai, minha mãe, meus avós maternos, minhas duas primas e a querida Antônia, num apartamento da 204 sul. Naquela época, andávamos tranquilos nas ruas da cidade. O ensino público era bom. O transporte supria as distâncias que ainda eram pequenas. 


Centro Cultural Banco do Brasil
Aqui ganhamos uma nova família. Muita gente ficou em Belém e no Rio. Era preciso um ninho novo. Meus pais conheceram bons amigos e nós conhecemos os filhos destes bons amigos. E crescemos juntos, descobrimos o mundo juntos, aprendemos a viver juntos e, mesmo quando ficamos muito tempo sem nos ver, quando nos vemos, nos abraçamos como se tivéssemos visto ontem. Nos anos 80, Brasília tinha essa característica: as pessoas se juntavam, porque suas famílias de origem estavam longe. Acho que até hoje acontece isso.


.Essa cidade me ensinou a respirar arte: leitura, música de qualidade, teatro, dança, exposições, museus. As bibliotecas da UNB e do INL, a Escola de Música de Brasília, o Teatro Dulcina e o Garagem... quem estudava em escola pública nos anos 80/90 era incentivado a tudo isso. E hoje, tudo isso cresceu, melhorou, expandiu. 


Beirute
A noite da cidade também melhorou. Tem programação pra todo gosto e de todo tipo. Barata, cara, chique, pé sujo... Os bares ainda fecham cedo e a noite acaba na hora que devia estar começando, mas ninguém pode mais dizer que não tem nada pra fazer em Brasília. Tem sim!


Marcha dos Excluídos 2005
Em 52 anos temos muito que comemorar... Mas também temos muito para chorar. A verdade é que de 1990 pra cá, Brasília se tornou uma terra de gente muito sofrida. A maioria da população brasiliense não mora no Plano Piloto nem em seus arredores, mas trabalha lá. Em média, as pessoas perdem 3 horas por dia para ir e voltar de seus trabalhos. Pagam caro neste transporte, que é de qualidade deprimente. Ganham mal em relação ao elevadíssimo custo de vida. Vivem mal, com nenhuma opção pública de saúde - em Brasília, nem hospital particular presta - e raras opções públicas de educação. Alimentação e vestuário são caríssimos. O acesso à cultura e ao lazer nas regiões administrativas também é escasso.


Brasília não é diferente do resto do País. A cidade cresceu e uma sequência de governos populistas trouxe para Brasília pessoas de todas as regiões brasileiras,  em busca de moradia, de emprego e de uma vida melhor. Mas, Brasília nunca teve um parque industrial, nem grandes empresas que abrigassem tanta gente. Os programas habitacionais empreendidos por estes governos, não incluíam saneamento básico, planejamento urbano, nem nada do tipo. E a cidade está pagando sua conta até hoje. 
Lixão da Estrutural - Foto do site Farol Comunitário


Brasília é conhecida como a terra dos políticos. Mas, poucos são daqui. A maioria vêm de todos os Estados do Brasil para exercer um mandato para o qual foram eleitos pelos homens e mulheres de seus Estados. E a cidade de Brasília tem levado a fama.  


A maioria da população brasiliense é composta por trabalhadores, ao contrário do que se pensa e se divulga por aí: 52,5% exercem alguma atividade na esfera privada e 37,5% exercem atividade na esfera pública. A taxa de desemprego (apenas no DF, sem considerar entorno) é de 11,5%, considerando entorno sobe para 35%, segundo dados da CODEPLAN. 


Muita gente, pouco espaço, desigualdades sociais gritantes, gente ganhando muito dinheiro, gente ganhando nenhum, desemprego, sub-empregos em larga escala, dois mundos dentro de uma mesma cidade. Que um dia tudo isso mude... Não só em Brasília, mas em todo Brasil, que é todo sofredor deste mesmo mal chamado abismo social.


Bloco Carnavalesco Suvaco da Asa
Ao poetinha, se ele puder me ouvir, tenho a dizer que hoje Brasília não tem mais "aquela solidão de um povo inexistente". Brasília já tem seu povo, sua cultura, sua gente boa e honesta que aqui nasceu e trabalha e que tem muito a dizer de si mesma e daquilo que deseja para o futuro dessa cidade. 


Parabéns, Brasília!

terça-feira, 3 de abril de 2012

Operação Apolo 11 - Ditadura, Memória Política e ponderações.




Tela de João SuzukiExercício Integração Número 1Mista sobre madeira100x200 cm
Acervo do Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo  (MAC)caption 

Pois é... tortura não se comemora... assassinatos, sequestros, estupros e outras tantas barbáries ocorridas durante o regime ditatorial também não. Dediquei três anos da minha vida à análise de requerimentos de perseguidos políticos no Brasil nos anos de chumbo. Integrar de alguma forma a Comissão de Anistia do Ministério da Justiça era um sonho para quem trabalhava há 02 anos analisando os pagamentos de anistiados políticos no Ministério do Planejamento.

Lembro com muito carinho da primeira e de todas as sessões de julgamento de processos das quais tive o prazer de assistir e participar. No meu primeiro dia de trabalho,  foi analisado o requerimento de anistia de Irles Coutinho de Carvalho, primeira esposa de Hebert de Souza. Eu já conhecia aquela história dos livros. Um tanto quanto capenga e incompleta, mas eu já tinha tido contato com aquelas informações. Ouvi-la da boca de Irles foi algo que me transformou. Irles e Betinho foram intensamente perseguidos no Brasil e por isso tiveram seu filho Daniel na clandestinidade em São Paulo. Daniel passou a infância trocando de endereço: Brasil, Chile, Suécia, Inglaterra... Daniel só teve direito de saber seu próprio nome aos 07 anos, quando já podia ter algum entendimento sobre a necessidade de manter este nome em sigilo, bem como a vida militante de seus pais. A ele também foi negado o direito de conviver com Betinho, que viveu clandestino no Brasil durante 6 anos e no exterior durante 08 anos.  Irles lembrou muito emocionada cada momento e dificuldade atravessada por sua família em decorrência da perseguição política e de sua orientação contrária ao regime imposto.  Naquele momento eu soube que não conseguiria manter distanciamento nenhum daquelas histórias de vida. 

Este foi meu primeiro dia na Comissão de Anistia. Ao requerimento de Irles, seguiram-se centenas de histórias que pude analisar, ouvir, acompanhar, sentir... Um trabalho como o da Comissão de Anistia não nos permite sair ilesos. Eu também não saí ilesa deste processo de transição incompleto e um tanto quanto injusto. Não só com os perseguidos, mas também injusto com as Forças Armadas, com nossos jovens, com nossas crianças e com nosso Brasil. Por conta de alguns homens que mancharam a história do Brasil, até hoje os militares sérios, justos e de boa conduta sofrem preconceito dentro da sociedade e são tidos como os vilões permanentes de uma história que não foi passada a limpo. Até hoje, os direitos humanos de nossos policiais são esquecidos. São eles submetidos a torturas durante seus penosos "cursos de formação" e muitos reproduzem toda violência a que são submetidos em suas vidas profissionais. Nossos jovens e nossas crianças não conhecem a história de seu País até hoje. Nossos idosos e adultos também não.

Durante todo este tempo, convivemos com as maledicências da imprensa sobre o trabalho realizado pela Comissão de Anistia. Por vezes, as críticas tinham sim fundamento. Mas a maioria, se configurava em açoite a um trabalho difícil, sem elementos suficientes (cadê a abertura dos arquivos???) e incansável pela busca de uma memória histórica para o Brasil.

As histórias que mais me chamavam atenção era as dos infinitos requerimentos políticos de pessoas que foram perseguidas, presas, torturadas, sem ter qualquer envolvimento combativo na derrubada da ditadura. Elas não tinham o que contar aos seus algozes e por isso inventavam histórias que não existiam, esperando que a partir de suas invenções suas sessões de tortura terminassem. A que mais me chamou atenção foi a de João Suzuki. Conheci a história de João, dois meses antes de sair da Comissão de Anistia. Por acaso, eu estava em uma Caravana da Anistia em São Paulo e entrei em uma sessão de julgamento onde estava sendo analisado o requerimento de João. Ouvi parte do voto que concedia a anistia. Mas ouvi profundamente o silêncio, o tremor e o choro tímido e incontido de João Suzuki ao ter sua anistia concedida. Em conversa posterior com o relator do requerimento, fiquei muito intrigada ao descobrir que João havia sido preso por conta de uma tal Operação Apolo 11. Fiquei tão inquieta que, quando saí da Comissão de Anistia, resolvi pesquisar a história por conta própria, com a ajuda de três amigos e com o apoio do Alexandre Bernardino Costa - que se empolgaram a partir da minha ideia de fazer um documentário sobre a Apolo 11.

Ficha da Operação Apolo 11 no Arquivo Público do Estado de São Paulo


Relatos descrevem que em 1969, um publicitário sem envolvimento militante foi preso no Rio e, não suportando mais as torturas que questionavam a que organização pertencia, lembrou de um cartaz dentro do DOPS onde havia a foto do foguete Apolo 11.  Aos questionamentos de seus algozes respondeu que pertencia a Organização Apolo 11. Não satisfeitos, os militares queriam os nomes dos envolvidos na Operação. O publicitário respondeu que os nomes estavam em sua agenda. O publicitário havia visitado uma exposição de Suzuki um mês antes. E assim, João Suzuki passou a fazer parte dos Arquivos Públicos do Departamento de Ordem Social de São Paulo.

Em 2010, viajei até São Paulo, mais especificamente Santo André, onde visitei João Suzuki em sua casa. João me recebeu com muita desconfiança. A casa dele chamava atenção. Era difícil entrar na casa pelo número de plantas. Do lado de fora, João plantou árvores grandes, de forma a impedir que alguém o visse (assim ele me justificou, pois a perseguição em sua cabeça ainda não tinha cessado). João tinha medo de me receber, por isso conversamos por muito tempo do lado de fora da casa. No pequeno quintal mais plantas... muitas plantas, esculturas inacabadas no meio delas, telas inutilizadas, e muita paz, da qual João nem sempre desfrutava. 

Ao entrar, João me contou sobre o falecimento de sua esposa e sobre a falta que ela fazia em sua vida. Na sala (muito simples e pequenina), muitos quadros, telas, tinta  e  Bach na vitrola. João era um artista na mais profunda essência da palavra. Muito lúcido, mesmo diante de todo problema psiquiátrico enfrentado em decorrência das torturas no Tiradentes. 

Ao conversamos, Suzuki relatou que, em 1969, ministrava aulas de artes plásticas num instituto próximo à Biblioteca Nacional e que ao redor da biblioteca havia muitos bares, onde se reuniam os universitários, os artistas, os professores e intelectuais da cidade. Lá funcionava a noite e a boemia paulista. Frequentando a noite, ficou amigo de um tal de Tuna (um baiano, filho de um juiz), de Alcides (que participou do seqüestro do embaixador americano), de Liberato (que também era artista plástico) e de Ana e Demerval (que eram casados). Todos estes, ele desconhecia o sobrenome e do Tuna sempre só soube o apelido. Disse que depois de muitos anos de sua soltura, ficou sabendo que eram militantes políticos e que o apartamento de Tuna, onde ele foi algumas vezes para tomar cerveja, era um aparelho.

Suzuki não participava de nenhuma organização. Também não pregava nenhum ideal socialista ou comunista. Suzuki era um jovem artista, que como todos os rapazes  de sua idade gostava de amigos, de música, de arte, de uma cervejinha no fim da tarde.  

Na época de sua prisão, João já morava na mesma casa em que o visitei. João havia saído para comprar pão com seu filho, quando foi preso na frente de sua casa. Seu filho foi arrancado de seus braços e dali foi levado à prisão. 
Suzuki foi levado para o 3º Quartel. Lá queriam saber quem tinha jogado a bomba no Estadão. Todos os interrogatórios se resumiam a isso e ele não tinha nada pra falar. Assim, foi espancado e levado ao pau-de-arara algumas vezes. Conhecia muitos jornalistas e publicitários, muitos eram seus alunos ou seus clientes, mas não sabia nada sobre seu envolvimento com a militância.         
        
Suzuki relatou que a pior tortura é a psicológica. Ele não sabia onde estava seu filho e sua esposa. Durante o tempo em que esteve preso, mais ou menos 15 dias, sofreu muitas alucinações. Disse que viu sua mulher ser fuzilada, seu irmão ser morto, que tinha alucinações freqüentes e que na sua cabeça é muito difícil distinguir realidade de alucinação e que isso se perdurava até então.
Retrato de Menino aos 3 anos
pastel sobre papel
66 x 45 cm
Tela de João Suzuki

João não se lembrava de ter tomado banho na prisão. Lembrava que a comida era escassa e uma vez ao dia. Lembrava do excedente número de presos na mesma cela. Por vezes, o buraco onde defecavam entupia, e a partir daí era preciso fazer as necessidades no chão da cela. Lembrava que os agentes ligavam um barulho de motor insuportável e que passavam o dia ouvindo aquele barulho e que aquilo era uma tortura horrível.

Também contou que um dia ele acordou e os agentes haviam deixado muitas lâminas de barbear ao redor dele. Acreditava que queriam que ele se matasse.

Algumas pessoas já haviam lhe contado que ele tinha atitudes estranhas na cela, que por vezes ficou nu, que desenhava com fósforos e com casca de banana, que gritava muito e outras coisas que neste momento ele ainda não consegue falar, mas que ele não se recorda porque estava muito alucinado. Contei que alguns amigos, como o Alípio Freire tinham testemunhado o fato e ele agradeceu, porque não conseguia se lembrar de muitas coisas. 

Pelas minhas pesquisas no Arquivo Público, João Suzuki foi apenas um dos que foi preso em decorrência da fantasiosa Apolo 11. A operação deflagrou mais de 20 prisões no Rio e em São Paulo, ao que tudo indica. 

Não pude levar a pesquisa e o projeto à frente, por estar envolvida com outras questões e João Suzuki faleceu um pouco depois de minha visita. Esta foi a forma que encontrei de registrar minha memória para que um pouquinho desta história se preserve. 

Aos que acreditam que a memória política só interessa à esquerda brasileira, que a responsabilização dos crimes comuns ocorridos durante a ditadura é revanchismo, que isso é passado e não interessa mais, eu pergunto: em que história estamos pautando o nosso futuro????

"Para que nunca se esqueça, para que nunca mais aconteça"

Com amor, em memória de João Suzuki e de todas as mulheres, de todos os homens, de todas as crianças que tiveram sua vida ceifada ou parte dela pelas atrocidades deflagradas nos anos de chumbo.                    

                                  
João Suzuki, foto de Neusa Schilaro Scaléa
 digitalizada do livro "João  Suzuki,  travessia do sonho" 


quarta-feira, 28 de março de 2012

Falando de amor






Há cerca de um mês tomei uma decisão que acho que todo mundo deveria imitar, se ainda não faz. Reservei um dia da semana para mim. É um dia em que saio do trabalho mais cedo e me reservo a me encontrar comigo mesma, com amigas e amigos queridos para fazer programas que podem de alguma forma encher a minha vida... É o dia de poetizar a vida e de sair do chão, relaxar, e curtir uma hora especial. 

Hoje fui curtir a natureza na Água Mineral e depois estiquei para o Casa Park. A pedida não podia ser melhor: "A música segundo Tom Jobim". Música do começo ao fim.  O que posso dizer é que poucas vezes vi algo tão perfeito!

Como cresci ouvindo Tom, cada música tocada no filme parecia uma viagem no tempo. Amores, amigos eternos, meus pais, meu irmão... cada música tem a cara de alguém que eu amo ou me lembra um dado momento da vida. Tom cantou o amor em praticamente todas suas músicas, nas mais diferentes formas, estilos e línguas.  E cantando o amor, tornou o mundo melhor. Tornou minha vida melhor. Incrível! Em 1 hora e meia, chorei, dei risada, senti saudade, muita saudade e senti muita alegria por poder parar a vida por um minuto e rever tanta coisa bela dentro de mim.

Recomendo a todos! Viva o Tom e toda herança deste mestre!

Adriana Monteiro da Silva


domingo, 11 de março de 2012

A idade que nos permitimos

"- Mamãe, quantos anos tem meu avô?"
"- 64, filho!"
"- 64, mamãe! Que que é isso??"

Quando crianças, achamos que qualquer idade acima dos 20 significa velhice. No entanto, chegamos aos 30 nos sentindo com 20, aos 40 nos sentindo com 30 e por aí vai! Tenho 36 anos e acho que quando eu estiver com 45 minha vida estará apenas começando. 

Tá... os seios já não apontam para o céu. Duas amamentações, uma pele que não é das mais rígidas, nenhum silicone. É claro que eles não são mais os mesmos. Estrias, tenho desde que tenho 09 anos. Celulite idem. Com certeza, não sou mais aquela menina do "corpinho violão". Mas quem precisa dele?? Os homens?? Os garotos talvez. Os homens não. 

Envelhecer virou sinônimo de desespero para a maioria das mulheres. Votamos e somos votadas. Alcançamos o poder em todas as suas esferas. Já provamos que somos capazes de ocupar qualquer cargo e que temos tanta competência quanto eles. Ainda não alcançamos os mesmos salários e ainda falta muito para se falar em igualdade, mas quando vejo algumas amigas - (pasmem!) muitas mais jovens que eu - desesperadas  atrás de um bisturi, penso até onde vai a violência contra a mulher.

Sim, violência! Velada, permeada de belos anúncios, discreta, sutil, mas ela está lá! Socializada, aceita e imposta. Com todas as mazelas que permeiam todas as violências. 
Quantos homens não obesos se submetem a cirúrgias plásticas por causa de uma barriguinha fora do lugar? Quantos homens utilizam-se de botox para corrigir uma mínima ruga? 
"É que a mulher precisa estar sempre linda." Muitas e muitos dirão.
Eu diria: "Para toda mulher linda, existe um barrigudo, careca e que se acha." Ao menos, é o que eu vejo nas ruas. Enfim, nos cuidamos demais. E eles, muito pouco. Ainda assim, eles se acham! E nós esquecemos que temos que "nos achar" mesmo! Eles estão certos!

Mas, minha pergunta é: "Quem diz o que é belo?"
Não, não sou contra nada disso. Pelo contrário. Trabalho com produtos de beleza. Tem algo melhor do que nos sentirmos bem? Todos e todas temos o dever de cuidar do corpo, com o cuidado que cuidamos da alma e da mente. 
O que me irrita é essa violência que nos nega até o direito da idade. 

Durante um tempo, eu sonhava em colocar silicone. Hoje, olho para os meus filhos, para a minha história, para tudo que já passei e penso que meus seios são uma parte preciosa desta história e que cada um dos sinais que o tempo tem deixado em mim são um pedacinho muito especial do que hoje sou. E desejo ardentemente cada um deles.

De todas as coisas, restou apenas a certeza de que era necessário ir em frente.
Os conceitos antigos precisavam de reformulação. Os preconceitos precisavam ficar de lado. Era impossível vivenciar o que estava chegando sem deixar a velha Adriana para trás.
Dela eu quero muita coisa. Quero os tombos, os aprendizados e os acertos. Mas há algo nela que eu não desejo. Quero que seus medos se calem; que seus preconceitos se destrinchem e transformem-se em conceitos verdadeiros; que a vida se abra; que o sorriso prevaleça sobre a dor e que os momentos difíceis sejam unicamente lembrados como aprendizados.
É isso. Parece que agora estou mais pronta.