sexta-feira, 25 de maio de 2012

O "Veta Dilma" e a democracia.


Sim... é verdade! O veto presidencial não é o instrumento mais democrático que o Brasil possui - e nem o que nós gostaríamos de estar apoiando neste momento - mas também não chega a ser um afronto ao regime democrático, como se tem dito por aí. 

Previsto na Constituição Federal da República de 88, art. 66, § 1º§, o veto se constitui hoje na única esperança dos brasileiros terem sua voz ouvida no que tange ao novo Código Florestal. 

Quando um projeto de lei é aprovado no Poder Legislativo, ele vai à sanção da Presidente, que poderá sancioná-lo ou vetá-lo, total ou parcialmente.
A Presidente tem o prazo de 15 dias úteis para se manifestar. Esgotado esse prazo, projeto é aprovado tacitamente. 
Só há duas razões para o veto: política, quando o projeto é considerado contrário ao interesse nacional; ou jurídica, quando o projeto é considerado inconstitucional.
Após o veto presidencial, o Senado e a Câmara formam uma comissão mista que para analisar o veto e dar seu relatório no prazo de 20 dias.
O relatório é lido em uma sessão conjunta, discutido e votado secretamente. Para ser rejeitado, o veto precisa de maioria absoluta de votos negativos, tanto na Câmara como no Senado.
Se o veto for derrubado, a Presidente da República deve promulgar e publicar a matéria.
Portanto, ainda teremos muito jogo político pela frente. 
Falando em miúdos, para derrubar o veto, é preciso 257 votos favoráveis na Câmara e 42 no Senado. 
O texto-base foi aprovado com 274 votos a favor, 184 contra e duas abstenções. Se todos os deputados mantiverem suas posições, a Câmara derrubará o veto com 17 votos - fácil, fácil!  - o que resultaria em imenso desgaste político à Dilma, que agora precisará correr atrás da base governista para manter o veto, caso o faça como espera a população brasileira. 
Pesquisa do Datafolha, de abrangência nacional, realizada em zonas rurais e urbanas entre 3 e 7 de junho de 2011, já apontava a insatisfação nacional com o Código que foi aprovado pela Câmara. 
Dependendo das perguntas, a porcentagem dos brasileiros que discordavam da proposta votada na Câmara dos Deputados variava entre 77% (a favor do adiamento do debate para ouvir a ciência) e 95% (que não aceitam perdoar desmatamento ilegal sem recuperação). 
Na pergunta básica e introdutiva, na qual se colocou a alternativa entre dar prioridade para a proteção das florestas (mesmo que isso limite a produção agropecuária) ou para produção (mesmo que limite a proteção das florestas), a primeira alternativa recebia 85% e a segunda, 10%, com 5% de "não sei".        
Quando se falou em perdão do desmatamento ilegal, foram realizadas perguntas diferentes. "Quando se oferecem três opções qualificadas, com uma intermediária, é possível observar como a primeira escolha da população seja em prol da mais rigorosa, isto é a de punir em qualquer caso para dar o exemplo, escolhida por 48% dos entrevistados; em seguida vem a opção intermediária (a de punir só quem se recusa a repor a floresta) com 45%, enquanto a opção de perdoar sem repor a floresta, objeto da proposta votada pela Câmara dos Deputados, atinge meros 5%. Quando se apresentam apenas duas opções, 79% se declaram em geral contra perdoar penalidades e multas (com 19% que aceitam esta possibilidade) e 77% se declaram contra a dispensa da reposição da floresta (com 21% que a admitem)."  publicada pela www.wwf.org.br   
No caso da ocupação das Áreas de Preservação Permanente (encostas, topos de morro, várzeas, etc.), prevalece a opção intermediária, ou seja a de manter apenas cultivos que segurem o solo e não gerem riscos de acidentes, com 66%, seguida da opção de remover todos os cultivos, com 25%, enquanto aquela de manter todos os cultivos - conforme proposta aprovada pela Câmara dos Deputados - é apoiada por apenas 7% da população.    
A opinião geral sobre o tema é confirmada quando se passa a considerar as implicações políticas: 79% apoiam o eventual veto da presidente, no caso em que o Senado validasse a proposta da Câmara. 
Vale salientar que no mesmo período, pesquisa do Datafolha indicou que apenas  47% da população aprovavam a atuação da Presidente Dilma. 
Uma parcela ainda maior, atingindo 84%, afirma que não votaria em deputados e senadores que tenham votado a favor do perdão de desmatamento ilegal.    
Ontem as assinaturas populares em petição da Avazz, entregue à Presidente estavam em 1.900.000. Hoje, neste exato momento, já são 2.096.666 assinaturas. 
Em tempos de Rio +20, o não veto da Presidente, com tanto clamor popular, traria péssimas impressões para o Brasil internacionalmente. 
Portanto, em meio a tantos interesses espúrios e econômicos, esperamos ansiosos que vença a democracia que o veto tentará resguardar!

sexta-feira, 11 de maio de 2012

"Ser mãe é desdobrar, fibra por fibra o coração"

Eu, com um ano, e minha mãe
Muitas coisas me lembram minha mãe: casa cheia, festa, praia, um prato requintado, Chico e Nara, Ney Matogrosso, teatro, risos, rede, meus filhos, minhas primas (que são até mais parecidas com ela do que eu), meu irmão, cheiro de patchouli, torta de tapioca com coco, peixe na folha de bananeira. Ai, que saudade!

D. Graça se foi quando eu tinha 18 anos. E já se passaram quase 20... mas parece que foi ontem, porque colo de mãe é coisa inigualável e quando elas se vão deixam saudades e buracos que o tempo não é capaz de preencher... ao menos, não por completo... 

Mas o tal do tempo é um grande aliado e com ele vamos aprendendo a nos reinventar, e eu fui reconhecendo minha mãe e sua herança de amor em muitos outros colos: no do meu pai, incansável na sua arte de me aceitar do jeitinho que eu sou; na minha madrasta, que virou avó dos meus filhos e não se nega a lhes dar todo amor deste mundo; em minhas tias, especialmente tia Ana e tia Maria, que se fazem presentes em minha vida constantemente; em alguns amigos, que não me faltam nas horas em que eu mais preciso; e até nos meus próprios filhos que enchem minha vida de amor e de alegria todos dos dias. 
Ana Luísa com João Arthur no colo


E hoje, a mãe sou eu. Gosto de ser mãe. É o meu papel preferido, embora eu saiba que todos os outros são importantes e igualmente especiais, eu gosto de ser mãe. Gosto de chegar em casa e receber aquele mundo de beijos, afagos e abraços; gosto de colocar eles na cama pra dormir, como se eu tivesse algum controle sobre aquelas vidas e seus futuros; gosto de risada de criança, de comida de criança, de filme e de música de criança; gosto de sua pureza e inocência diante da vida; gosto de ver como são corajosos e como não se intimidam diante dos desafios e intempéries da vida e gosto principalmente da capacidade que as crianças têm de entender tudo que lhes é explicado com simplicidade. 

Amo a teimosia e a desobediência dos pequeninos. Estes dias, pedi a Deus que mantenha em meus filhos a capacidade de me desobedecer: nem sempre estou certa, não sei de tudo e sinto que eles possuem habilidades suficientes para serem melhores do que fui até hoje.    

Eu, João e Ana - Foto de Lorena Lopes
Meus filhos me ensinaram que a vida é simples. Crianças sorriem quando ganham balinha e são capazes de dar um grito de alegria diante de uma casquinha de sorvete. Crianças não tem vergonha de si mesmas, nem dos outros. Crianças não se concentram naquilo que não lhes traz alegria, não se interessam por aquilo que não lhes desperte a criatividade e a imaginação e nem se prendem a pessoas que não lhes retribuem o amor que elas disponibilizam. 

Crianças não cultuam ódios, nem preconceitos, a não ser quando são ensinadas a fazê-lo. Crianças não tem medo de dizer que não sabem, não hesitam em chorar quando se sentem tristes e não mascaram sentimentos. 

Mas, meus filhos não serão crianças para sempre e eu, como toda mãe que se importa - sim, existem mães que não se importam - tenho medo. Sinto um frio na barriga todos os dias em que costuro com cuidado suas asas. Quem pode viver sem asas? Eles a querem intensamente, como um dia eu as desejei e eu preciso vencer meus medos, dia-a-dia, para ir costurando estas asas da melhor forma, para que consigam produzir o melhor vôo, para que proporcionem a eles o melhor passeio neste mundo. 

O que eu queria de dia das mães? Queria alguma garantia, algo que me dissesse que estou fazendo o que é certo, algo que acalentasse o meu coração e me livrasse da culpa diária da maternidade - toda mãe sabe do que falo - algo que me fizesse acreditar que eu sou uma boa mãe. 

Mas não há garantia para isso. É preciso viver cada pedacinho de vida e assumir que mãe não é Deus. Acho que essa é a minha maior dificuldade neste papel. Aceitar minha impotência e incapacidade de resolver todas as coisa por eles, de protegê-los a cada novo passo - ou vôo - de me desvencilhar da minha soberba e me aceitar incapaz. 

Então, o que eu desejo a todas as mães é o que eu desejo também para mim: desejo que se aceitem pequeninas; desejo que se perdoem pelos erros, pelas falhas, pelos momentos em que não puderam fazer nada; desejo que se saibam únicas e preciosas, com todos os seus medos, erros, acertos, culpas; desejo que não desistam de seus próprios desejos; desejo que saibam ser um pouco egoístas, porque não há como fazer alguém feliz, quando não se é feliz; desejo que saibam que há diferença entre ser mãe e parir; desejo que tenham fé em algo que as sustente; desejo que aceitem a si mesmas e que se achem mulheres especiais; desejo que não se furtem ao amor de seus filhos; desejo que reconheçam os erros deles e que os ajudem a crescer; desejo-lhes paciência; desejo-lhes um bom companheiro, que torne a vida mais afável; desejo segurança, aconchego, ternura, paz; desejo poesia, gota de chuva, mão-na-mão, flores, sol, música e sorrisos e também desejo lágrimas porque nenhuma vida é feita só de sorrisos.

Para todas as mães: as de sangue; as de coração; para os pais que são mães; para as mães de pessoas que, por algum motivo, estão excluídas socialmente; para as mães de pessoas desaparecidas; para as mães que nunca mais viram seus filhos; para as mães que vivem coladas neles; para as mães que não se sentem mães; para as mães de estrelinhas; para as mães que são avós e bisavós; para as que ainda não são, mas desejam ser mãe. 

Beijos com amor, 
Adriana Monteiro da Silva

terça-feira, 8 de maio de 2012

Uma gota de justiça: Eldorado dos Carajás!





Após 16 anos, a justiça do Pará condenou o coronel da Polícia Militar paraense Mário Colares Pantoja a 258 anos de prisão e o major da PM José Maria Pereira de Oliveira, a mais de 158 anos. 


Os dois são acusados de envolvimento na morte de 19 trabalhadores rurais sem-terra, em 16 de abril de 1996, no episódio conhecido como Massacre de Eldorado dos Carajás. 

Mário Colares Pantoja já se entregou e foi preso pelas autoridades paraenses, segundo a Secretaria de Segurança Pública do Estado.

Esta é uma gota de justiça, um alento, um acalanto, uma esperança, em meio aos recorrentes episódios de violência e assassinatos no campo. Os números da Comissão da Pastoral da Terra falam por si só. De 2002 até 2011 foram contabilizados 9.410 conflitos e 272 assassinatos. Em 2011, houve um aumento de 12,7% nas ocorrências de trabalho escravo no campo, se comparadas com 2010. 

A Pastoral da Terra emite relatórios anuais acerca da violência no campo. "Um dos documentos entregues, foi a relação de Assassinatos e Julgamentos de 1985 a 2010. Neste período, foram assassinadas 1580 pessoas, em  1186 ocorrências. Destas somente 91 foram a julgamento com a condenação de apenas 21 mandantes e 73 executores. Dos mandantes condenados somente Vitalmiro Bastos de Moura, o Bida, acusado de ser um dos mandantes do assassinato de Irmã Dorothy Stang, continua preso", assim consta do relatório.


No período da votação do novo Código Florestal, ocorreram 29 assassinatos, sendo 11 haviam sofrido ameaças de morte. De 2010 para 2011 esse número aumentou consideravelmente de 125% para 178%. 


Foto: Nelson Souza/IBAMA
A punição dos assassinos de Maria do Espírito Santo e José Claudio, mortos em Nova Ipixuna, no Pará é uma das exigências do documento. Na época, a Secretaria de Direitos Humanos foi informada da situação dos ambientalistas e não tomou as devidas providências. Agora, Laíssa Sampaio, irmã de Maria Espírito Santo e seus companheiros de luta também são alvo das ameaças dos interessados economicamente na região. 


Enquanto isso, a herança colonial dos grandes latifúndios segue e a reforma agrária permanece como apenas mais um sonho, sem o qual fica impossível se pensar em um Brasil mais justo e igualitário. 

Adriana Monteiro da Silva


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terça-feira, 1 de maio de 2012

Cyber love

Moravam longe. Pouco se viam. Eram anos de um relacionamento em que o telefone e a internet eram o único meio de diminuir distâncias. Ela não conseguia mais amar. Não achava ninguém interessante. Não encontrava brilho em nenhum dos olhos que a noite lhe apresentava. Parecia que a vida já havia lhe tirado a capacidade de acreditar no outro. Ele não. Mantinha aquele relacionamento com ela, apenas para ter a certeza de que alguém o compreendia. Chegava em casa e deitava com a mulher, cujo amor ele negava.
Ele precisava falar com ela, conversar e dividir suas meias-verdades. Ela falava pouco. Resumia-se a escutar e a desejar que em alguma daquelas  falas, algo a alimentasse. Gostava de suas doces risadas e da sua liberdade ainda que ele estivesse preso em suas próprias mentiras. 
Precisavam um do outro. Por muitas vezes, tentaram não mais se falar. Não aguentavam. Havia algo nele que só ela era capaz de entender. Havia algo nela que só ele era capaz de desvendar. Se liam nas falas um do outro e utilizavam-se daquilo para tentar ir além. 
Ela odiava mentira e ele mentia compulsivamente. Ele detestava gente sem ambição e sem propósito e ela não tinha nenhum dos dois. 
Não via nele alguém que a pudesse fazer feliz. Não via nela alguém capaz de fazê-lo amar. Ainda assim, precisavam se falar todos os dias e saber um do outro, como se isso fosse capaz de lhes trazer de volta a vida. 

Maria sem música

No fundo, ela sabia. Algo havia se quebrado. Seu riso era diferente. Ela não se reconhecia mais. Sua tristeza havia lhe tirado até sua identidade. Olhava pra ele e tudo aquilo não fazia muito sentido, senão pelo pequeno Francisco que ainda segurava em seus braços. O garoto precisava dos dois, pensava. Por outro lado, de que dois ele estava sentindo falta? Faltava acalanto, ternura, afeto, faltava uma música que lhes saltasse a alma e fizesse com que os dois se reconhecessem de novo. Há muito ela esperava que a música tocasse, mas o CD parecia arranhado e o que tocava ela realmente não queria mais ouvir. 
Sim, havia uma vontade de estar junto. Ela já havia abandonado tudo para ficar com ele. Ele também já fizera o mesmo. Os dois se amavam, não havia dúvida. Questionava-se ela se o amor era suficiente. Ela gostava de beijos, de abraços, de elogios, dos sussurros, das carícias sem tempo nem hora. Ele era pacato, calado, objetivo, prático e não entendia os porquês de todo aquele drama. 
Mas não era drama. Ela realmente precisava daquilo. Precisava se sentir amada e ele não a aquecia. Ela queria paixão. Queria mais da vida. E sabia que a vida podia ser mais do que aquilo. As praticidades diárias eram pouco pra ela. Sua alma ardia. Seu coração também