| Tela de João SuzukiExercício Integração Número 1Mista sobre madeira100x200 cm Acervo do Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC)caption |
Pois
é... tortura não se comemora... assassinatos, sequestros, estupros e outras
tantas barbáries ocorridas durante o regime ditatorial também não. Dediquei
três anos da minha vida à análise de requerimentos de perseguidos políticos no
Brasil nos anos de chumbo. Integrar de alguma forma a Comissão de Anistia do
Ministério da Justiça era um sonho para quem trabalhava há 02 anos analisando
os pagamentos de anistiados políticos no Ministério do Planejamento.
Lembro
com muito carinho da primeira e de todas as sessões de julgamento de processos
das quais tive o prazer de assistir e participar. No meu primeiro dia de
trabalho, foi analisado o requerimento de anistia de Irles Coutinho de
Carvalho, primeira esposa de Hebert de Souza. Eu já conhecia aquela história dos
livros. Um tanto quanto capenga e incompleta, mas eu já tinha tido contato com
aquelas informações. Ouvi-la da boca de Irles foi algo que me transformou.
Irles e Betinho foram intensamente perseguidos no Brasil e por isso tiveram seu
filho Daniel na clandestinidade em São Paulo. Daniel passou a infância trocando
de endereço: Brasil, Chile, Suécia, Inglaterra... Daniel só teve direito de
saber seu próprio nome aos 07 anos, quando já podia ter algum entendimento
sobre a necessidade de manter este nome em sigilo, bem como a vida militante de
seus pais. A ele também foi negado o direito de conviver com Betinho, que viveu
clandestino no Brasil durante 6 anos e no exterior durante 08 anos. Irles
lembrou muito emocionada cada momento e dificuldade atravessada por sua família
em decorrência da perseguição política e de sua orientação contrária ao regime
imposto. Naquele momento eu soube que não conseguiria manter
distanciamento nenhum daquelas histórias de vida.
Este
foi meu primeiro dia na Comissão de Anistia. Ao requerimento de Irles,
seguiram-se centenas de histórias que pude analisar, ouvir, acompanhar,
sentir... Um trabalho como o da Comissão de Anistia não nos permite sair
ilesos. Eu também não saí ilesa deste processo de transição incompleto e um
tanto quanto injusto. Não só com os perseguidos, mas também injusto com as
Forças Armadas, com nossos jovens, com nossas crianças e com nosso Brasil. Por
conta de alguns homens que mancharam a história do Brasil, até hoje os
militares sérios, justos e de boa conduta sofrem preconceito dentro da
sociedade e são tidos como os vilões permanentes de uma história que não foi
passada a limpo. Até hoje, os direitos humanos de nossos policiais são
esquecidos. São eles submetidos a torturas durante seus penosos "cursos de
formação" e muitos reproduzem toda violência a que são submetidos em suas
vidas profissionais. Nossos jovens e nossas crianças não conhecem a história de
seu País até hoje. Nossos idosos e adultos também não.
Durante
todo este tempo, convivemos com as maledicências da imprensa sobre o trabalho
realizado pela Comissão de Anistia. Por vezes, as críticas tinham sim
fundamento. Mas a maioria, se configurava em açoite a um trabalho difícil, sem
elementos suficientes (cadê a abertura dos arquivos???) e incansável pela busca
de uma memória histórica para o Brasil.
As
histórias que mais me chamavam atenção era as dos infinitos requerimentos
políticos de pessoas que foram perseguidas, presas, torturadas, sem ter
qualquer envolvimento combativo na derrubada da ditadura. Elas não tinham o que
contar aos seus algozes e por isso inventavam histórias que não existiam,
esperando que a partir de suas invenções suas sessões de tortura
terminassem. A que mais me chamou atenção foi a de João Suzuki. Conheci a
história de João, dois meses antes de sair da Comissão de Anistia. Por acaso,
eu estava em uma Caravana da Anistia em São Paulo e entrei em uma sessão de
julgamento onde estava sendo analisado o requerimento de João. Ouvi parte do
voto que concedia a anistia. Mas ouvi profundamente o silêncio, o tremor e o
choro tímido e incontido de João Suzuki ao ter sua anistia concedida. Em
conversa posterior com o relator do requerimento, fiquei muito intrigada ao
descobrir que João havia sido preso por conta de uma tal Operação Apolo 11. Fiquei
tão inquieta que, quando saí da Comissão de Anistia, resolvi pesquisar a
história por conta própria, com a ajuda de três amigos e com o apoio do
Alexandre Bernardino Costa - que se empolgaram a partir da minha ideia de fazer
um documentário sobre a Apolo 11.
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Ficha da Operação Apolo 11 no Arquivo Público do Estado de São Paulo
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Relatos descrevem que em 1969, um
publicitário sem envolvimento militante foi preso no Rio e, não suportando mais
as torturas que questionavam a que organização pertencia, lembrou de um cartaz
dentro do DOPS onde havia a foto do foguete Apolo 11. Aos questionamentos
de seus algozes respondeu que pertencia a Organização Apolo 11. Não
satisfeitos, os militares queriam os nomes dos envolvidos na Operação. O
publicitário respondeu que os nomes estavam em sua agenda. O publicitário havia
visitado uma exposição de Suzuki um mês antes. E assim, João Suzuki passou a
fazer parte dos Arquivos Públicos do Departamento de Ordem Social de São Paulo.
Em 2010, viajei até São Paulo, mais
especificamente Santo André, onde visitei João Suzuki em sua casa. João me
recebeu com muita desconfiança. A casa dele chamava atenção. Era difícil entrar
na casa pelo número de plantas. Do lado de fora, João plantou árvores grandes,
de forma a impedir que alguém o visse (assim ele me justificou, pois a
perseguição em sua cabeça ainda não tinha cessado). João tinha medo de me
receber, por isso conversamos por muito tempo do lado de fora da casa. No
pequeno quintal mais plantas... muitas plantas, esculturas inacabadas no meio
delas, telas inutilizadas, e muita paz, da qual João nem sempre desfrutava.
Ao entrar, João me contou sobre o falecimento de
sua esposa e sobre a falta que ela fazia em sua vida. Na sala (muito simples e
pequenina), muitos quadros, telas, tinta e Bach na vitrola. João
era um artista na mais profunda essência da palavra. Muito lúcido, mesmo diante
de todo problema psiquiátrico enfrentado em decorrência das torturas no
Tiradentes.
Ao conversamos, Suzuki relatou que, em 1969,
ministrava aulas de artes plásticas num instituto próximo à Biblioteca Nacional
e que ao redor da biblioteca havia muitos bares, onde se reuniam os
universitários, os artistas, os professores e intelectuais da cidade. Lá
funcionava a noite e a boemia paulista. Frequentando a noite, ficou amigo de um
tal de Tuna (um baiano, filho de um juiz), de Alcides (que participou do
seqüestro do embaixador americano), de Liberato (que também era artista
plástico) e de Ana e Demerval (que eram casados). Todos estes, ele desconhecia
o sobrenome e do Tuna sempre só soube o apelido. Disse que depois de muitos anos
de sua soltura, ficou sabendo que eram militantes políticos e que o apartamento
de Tuna, onde ele foi algumas vezes para tomar cerveja, era um aparelho.
Suzuki não participava de nenhuma organização.
Também não pregava nenhum ideal socialista ou comunista. Suzuki era um jovem
artista, que como todos os rapazes de sua idade gostava de amigos, de
música, de arte, de uma cervejinha no fim da tarde.
Na época de sua prisão, João já morava na mesma
casa em que o visitei. João havia saído para comprar pão com seu filho, quando
foi preso na frente de sua casa. Seu filho foi arrancado de seus braços e dali
foi levado à prisão.
Suzuki foi levado para o 3º Quartel. Lá queriam
saber quem tinha jogado a bomba no Estadão. Todos os interrogatórios se
resumiam a isso e ele não tinha nada pra falar. Assim, foi espancado e levado
ao pau-de-arara algumas vezes. Conhecia muitos jornalistas e publicitários,
muitos eram seus alunos ou seus clientes, mas não sabia nada sobre seu
envolvimento com a militância.
Suzuki relatou que a pior tortura é a
psicológica. Ele não sabia onde estava seu filho e sua esposa. Durante o tempo
em que esteve preso, mais ou menos 15 dias, sofreu muitas alucinações. Disse
que viu sua mulher ser fuzilada, seu irmão ser morto, que tinha alucinações
freqüentes e que na sua cabeça é muito difícil distinguir realidade de
alucinação e que isso se perdurava até então.
Retrato de Menino aos 3 anos
pastel sobre papel
66 x 45 cm
Tela de João Suzuki
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João não se lembrava de ter tomado
banho na prisão. Lembrava que a comida era escassa e uma vez ao dia. Lembrava
do excedente número de presos na mesma cela. Por vezes, o buraco onde defecavam
entupia, e a partir daí era preciso fazer as necessidades no chão da cela. Lembrava
que os agentes ligavam um barulho de motor insuportável e que passavam o dia
ouvindo aquele barulho e que aquilo era uma tortura horrível.
Também contou que um dia ele acordou e
os agentes haviam deixado muitas lâminas de barbear ao redor dele. Acreditava
que queriam que ele se matasse.
Algumas pessoas já haviam lhe contado que ele tinha
atitudes estranhas na cela, que por vezes ficou nu, que desenhava com fósforos
e com casca de banana, que gritava muito e outras coisas que neste momento ele
ainda não consegue falar, mas que ele não se recorda porque estava muito
alucinado. Contei que alguns amigos, como o Alípio Freire tinham testemunhado o
fato e ele agradeceu, porque não conseguia se lembrar de muitas coisas.
Pelas minhas pesquisas no Arquivo Público, João
Suzuki foi apenas um dos que foi preso em decorrência da fantasiosa Apolo 11. A
operação deflagrou mais de 20 prisões no Rio e em São Paulo, ao que tudo
indica.
Não pude levar a pesquisa e o projeto à frente, por
estar envolvida com outras questões e João Suzuki faleceu um pouco depois de
minha visita. Esta foi a forma que encontrei de registrar minha memória para
que um pouquinho desta história se preserve.
Aos que acreditam que a memória política só
interessa à esquerda brasileira, que a responsabilização dos crimes comuns
ocorridos durante a ditadura é revanchismo, que isso é passado e não interessa
mais, eu pergunto: em que história estamos pautando o nosso futuro????
"Para que nunca se esqueça, para que nunca
mais aconteça"
Com amor, em memória de João Suzuki e de todas as
mulheres, de todos os homens, de todas as crianças que tiveram sua vida ceifada
ou parte dela pelas atrocidades deflagradas nos anos de chumbo.

4 comentários:
Querida Adriana,
Conviver com parte do sofrimento de um período naquele estado de composição da nossa história representa muito para o aprendizado das faces do novo tempo desse país. Ainda acredito em vozes que ecoam pelos 4 cantos do nosso Brasil, em pessoas vividas como voce que ainda busca nos retalhos desse tempo trazer a memória de uma justiça e principalmente em gente que como nós desafia o dia na certeza de que os nossos filhos entenderão o porque de repensar o tempo e a vida.
É verdade, querido! Obrigada por suas considerações.
Prezada,
Cheguei ao seu blogue após digitar "Apolo 11 ditadura brasileira", no Google.
Bom, descobri sobre a tal Apolo 11 na obra "Milagre no Brasil", de Augusto Boal. Nela, o dramaturgo se refere à Apolo 11 como ação isolada de um "retardado mental" -- palavras dele, após conclusão dos torturadores --, que foi espancado até descobrirem essa sua condição e depois passaram a ficar despreocupados pela forma como esse indivíduo -- que você disse ser publicitário -- se comportava na sala de tortura(pp. 53-7).
Se estivermos tratando do mesmo assunto, pelo relato do Boal quase que apenas ri das situações (tratava-se de trotes feitos por telefone e chegou-se a prender gente, como você ressaltou, nada a ver com o assunto, por exemplo em festa de aniversário e igreja).
Daí a minha falta de conhecimento sobre tamanhas truculências, a respeito do que passaram João Suzuki e sua família.
No mais, gostei muito de seu relato apaixonado sobre a escuta com o outro e em relação ao outro.
Um fraterno abraço,
Daniel Feldman Israel
Jornalista -- Rio de Janeiro / RJ.
Oi Daniel,
Bem-vindo!
Realmente a Apolo 11 foi uma trapalhada. Seria hilária, não fosse o sofrimento que causou à vida de algumas como João.
Abraços!
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